Nova plataforma da EENCI
Informamos que, a partir do número 16(1) a EENCI mudou de plataforma, passando a operar exclusivamente no OJS (Open Journal System).
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Mudanças Climáticas, Educação e Inteligência Artificial: aprender em um mundo em transformação
Vivemos um tempo em que as mudanças climáticas deixaram de constituir apenas projeções construídas a partir de modelos científicos para se apresentarem como parte da experiência cotidiana. Ondas de calor, alterações nos regimes de chuvas, secas, enchentes, incêndios e seus efeitos sobre a disponibilidade de água, a saúde humana, os ecossistemas e as condições de vida tornam cada vez mais evidente que estamos diante de um dos grandes desafios científicos e sociais do nosso tempo.
É nesse cenário que se insere esta edição da EENCI, que traz como tema de capa as Mudanças Climáticas Globais. Os trabalhos aqui reunidos percorrem diferentes dimensões dessa problemática, estabelecendo interfaces com a saúde da população e a formação de técnicos, a qualidade da água, as particularidades climáticas regionais, como o BROBRÓ no Nordeste brasileiro, a Química Verde e a problemática dos pesticidas. Somam-se a esses estudos trabalhos que abordam a aplicação da Lei nº 10.639/2003 na Educação Brasileira e diferentes perspectivas para o Ensino de Ciências no Ensino Fundamental. Em sua diversidade, os artigos reafirmam que, ensinar Ciências, hoje, significa também oferecer instrumentos para compreender criticamente as transformações do mundo em que vivemos.
E é justamente a ideia de transformação que nos leva a comentar a elaboração da capa desta edição e outras já publicadas com o auxílio Inteligência Artificial. Vamos lá, a IA já está presente em nossas práticas sociais, científicas e educacionais e, provavelmente, sua presença será cada vez maior. A questão que se coloca, portanto, talvez já não seja simplesmente decidir se devemos ou não a utilizar, mas como podemos utilizá-la a favor da aprendizagem sem renunciar à autoria, à criatividade, ao conhecimento e, sobretudo, à criticidade.
Nesse ponto, as ideias do Professor Marco Antonio Moreira, idealizador da EENCI, sobre a Aprendizagem Significativa Crítica parecem particularmente atuais. Para Moreira, não basta que o sujeito aprenda significativamente. É necessário que essa aprendizagem lhe permita fazer parte de sua cultura e, simultaneamente, ser capaz de colocar-se fora dela, observá-la criticamente e não ser subjugado por seus ritos, mitos e ideologias. Em uma formulação que parece especialmente pertinente diante da Inteligência Artificial, afirma que uma aprendizagem significativa crítica deve permitir ao sujeito “usufruir e desenvolver a tecnologia sem tornar-se tecnófilo”.
Essa perspectiva é acompanhada por princípios que adquirem uma atualidade impressionante. Moreira defende a não centralidade do livro-texto, propondo a diversidade de materiais educativos, documentos, artigos e outras formas de produção do conhecimento e colocando o questionamento no centro da aprendizagem. Do mesmo modo, sustenta a necessidade da diversidade de estratégias de ensino e da participação ativa do estudante, em contraposição a um ensino essencialmente transmissivo.
Hoje, a IA faz parte de diversidade de materiais e estratégias. Não como fonte de autoridade, não como substituta do professor e tampouco como atalho para deixar de pensar, mas como mais um instrumento para pensar. Um instrumento que pode ajudar a perguntar, explorar possibilidades, confrontar representações, produzir imagens, organizar informações e construir relações. Nós professores devemos ter clareza de que seu uso subjaz a capacidade humana de questionar, avaliar, duvidar e decidir.
É esse olhar que podemos ter em relação ao uso inexorável da IA na dinâmica de ensinar e aprender. Proibi-la ou simplesmente ignorá-la não fará com que desapareça. Aceitá-la acriticamente, por outro lado, significaria abrir mão justamente daquilo que a educação deve preservar: a capacidade de pensar. O desafio está em aprender a trabalhar interrogando suas respostas, reconhecendo seus limites, verificando informações e assumindo a responsabilidade intelectual pelo que produzimos com seu auxílio.
Talvez esteja aí uma das tarefas mais importantes do Ensino de Ciências contemporâneo: ensinar a aprender em um mundo que muda sem ser simplesmente levado por suas mudanças. Nesse tempo, talvez a tarefa mais importante da educação seja ensinar nossos estudantes a produzir boas perguntas.