
Um passo de cada vez
Há algum tempo, venho ministrando a disciplina de Estágio Supervisionado I para licenciandos em Física. Essa etapa consiste na observação de aulas ministradas em escolas, preferencialmente da rede pública, para a qual os alunos são preparados com base em aspectos fundamentais da pesquisa qualitativa. Trata-se, afinal, de uma imersão em uma realidade por vezes desconhecida, ainda que muitos guardem vivências recentes de sua própria passagem pela educação básica. São tão jovens... Contudo, fizeram uma escolha profissional: desejam atuar como professores na educação básica.
Os relatos dessa etapa de observação, no entanto, são frequentemente desanimadores. Os estagiários observam professores que repetem sempre a mesma fórmula de aula, convictos de que o conteúdo deve ser “passado” no quadro, em uma narrativa na qual conceitos se reduzem a fórmulas e fórmulas a conceitos. Aplicam listas de exercícios de “fixação” baseados nos exemplos que eles mesmos resolveram na lousa, algo como “siga o modelo”. Esses professores naturalmente estão cansados e frustrados, alguns expressam literalmente seus sentimentos. Enfrentam, no dia a dia da sala de aula, dificuldades de toda ordem: alunos desinteressados que desafiam sua autoridade e resultados nas avaliações que, inexoravelmente, não alcançam sequer o satisfatório, entendido aqui como o minimamente esperado. Duvido que sejam profissionalmente felizes.
Diante dessa experiência vivida, é uma luta convencer esses jovens licenciandos de que ainda podem fazer a diferença.
Por outro lado, há depoimentos que revelam posturas de professores geralmente mais jovens, recém-formados por nós, nos quais se observa uma verdadeira injeção de ânimo e esperança. Segundo nossos estagiários, “os alunos adoram esse ou essa professora”: sorriso fácil, aulas dinâmicas e bem-preparadas, atividades diversificadas, metodologias fundamentadas e boa dose de empatia, são mais respeitados que os citados anteriormente. Não se trata de apologia ao novo, mas percebe-se uma vontade explícita de que os alunos aprendam Física, falem “fisiquês”, emitam opiniões, externalizem seus saberes e que os significados sejam negociados. Esses professores sabem que fazem a diferença; conhecem os meandros da aprendizagem de conceitos e da compreensão de fenômenos. São mais felizes que os primeiros? Talvez sim.
Consideremos que, historicamente, mesmo sem formação específica, era comum, com boa vontade e algum traquejo matemático, “assumir as aulas” e tornar-se professor de Física. Mais recentemente, compreendemos que o caminho para corrigir essas distorções seria formar um profissional cujo perfil pode-se se chamar de “físico professor” e nesse processo formativo, promover a construção de um conhecimento robusto no domínio de dois saberes: a Física e seu Ensino, com foco nos os mecanismos de aprendizagem. Afinal, o ensino só se consolida com a aprendizagem.
A EENCI reafirma, a cada edição, sua vocação de publicar artigos que enriquecem a formação de nossos professores e professoras, demonstrando que, além dos conteúdos das ciências básicas Física, Química, Biologia e Matemática, são igualmente essenciais os conhecimentos que fundamentem o saber de como o ensino deve resultar em aprendizagem - esse é o sentido que buscamos em nossa profissão, a mais importante e promissora para o empoderamento do ser humano por meio do conhecimento.
Um abraço,
Profa. Iramaia